“O mundo parece ser feito de regras. Tudo indica que essas regras foram testadas e comprovadas como imutáveis e universais. Mas o mundo é feito também de uma parcela de caos, de contingência e de acaso. Ensinaram-nos a ter medo desse caos. Disseram-nos que esse caos era uma morada dos demônios.

O mesmo temor nos separa do ato de sonhar. Os nossos sonhos, esse território que não comandamos, são sujeitos a uma releitura controlada quando deles nos lembramos. Os sonhos são uma janela aberta para esse universo de ausência de ordem e de sentido. Devíamos estar mais disponíveis a entender nos sonhos não o que eles dizem, mas a impossibilidade de se dizer, no nosso idioma, aquilo que pertence a uma outra racionalidade.

Mia Couto, Escrever e Saber
[COUTO, 2016]