︎Foto: Sebastião Salgado - Genesis: A Floresta Amazônica na Serra do Imeri Mountain, Amazonas, Brazil, 2009
"Li num livro sobre a história da pintura de paisagem que Petrarca foi o primeiro homem moderno, por ter sido pioneiro em escalar uma montanha pelo prazer da subida ou para ver o mundo de cima e afastar o horizonte. Ou para saber como se via o mundo sem ele, separado dele, como um espaço em que esse homem não se insere, do qual não participa. Parece mesmo haver uma certa coincidência entre a invenção da era moderna e esse ponto de vista elevado ou à distância, objetivo, como se prefere chamar; porque tudo que não é o homem moderno passa, então, a ser objeto.

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É o homem moderno que desenvolve a perspectiva na pintura, constrói miradouros e inventa o balão de ar quente. Belvederes, como se belo fosse ver o mundo de longe, as coisas menores do que são quando estamos com elas. Como se belo fosse ver que tudo se apequena diante desse sujeito, e que, assim diminuto, se apresenta para ele como amostra. É essa posição de sujeito que autoriza o homem a escrever enciclopédias e a fundar museus.

Curioso que os povos das selvas nunca tenham querido construir mirantes (e, portanto, nem museus). Ou não. A selva não se vê, de cima, mais que como um mar de verde. O mar aqui entendido como quem o vê do barco, claro; como uma massa contínua, quase sólida, que de perto não é. A selva é o oposto da vista panorâmica, do olhar em perspectiva. Na selva tudo se vê de perto e tudo é trama. As copas das árvores se fundem, as folhas de uma escondendo as de outra escondendo as de uma. E o que está sob os pés repete o que está no alto, as folhas que caem cobrindo outras folhas cobrindo outras folhas cobrindo outras folhas. Troncos e ramos e galhos e cipós e cobras e folhagens. Por todos os lados. Não há lugar de onde olhar a salvo como se vê a selva sem nós. Não há panorama possível, não há belvedere. A selva não se apequena nem se apresenta. Nem se traça o caminho a seguir. A trilha se faz abrindo o mato a facão, na medida do alcance do corpo, na força do braço, de um passo a outro passo."

[Carla Zaccagnini. Correspondência #1 (Bienal de São Paulo, 2020)]