︎Foto: Raymond Depardon. Aldeia Watoriki




[…] passamos tempo demais com o espírito voltado para nós mesmos, embrutecidos pelos mesmos velhos sonhos de cobiça e conquista e império vindos nas caravelas, com a cabeça cada vez mais ‘cheia de esquecimento’: imersa em um tenebroso vazio existencial, só de raro em raro iluminado, ao longo de nossa pouco gloriosa história, por lampejos de lucidez política e poética. […] Hora, então, de nos confrontarmos com as ideias desse lugar que tomamos a ferro e a fogo dos indígenas, e declaramos “nosso” sem o menor pudor; ideias que constituem uma […] teoria sobre o que é estar em seu lugar, no mundo como casa, abrigo e ambiente, [...] a terra como um ser que “tem coração e respira”, não como um depósito de ‘recursos escassos’ ocultos nas profundezas de um subsolo tóxico -- massas minerais que foram depositadas no inframundo pelo demiurgo para serem deixadas lá, pois são como as fundações, os sustentáculos do céu -- ; mas o mundo também como aquela outra terra, aquele ‘suprassolo’ celeste que sustenta as numerosas moradas transparentes dos espíritos, e não como esse ‘céu de ninguém, esse sertão cósmico que os Brancos sonham - incuráveis que são - em conquistar e colonizar.

Eduardo Viveiros de Castro, O recado da mata - Prefácio de A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert
[VIVEIROS DE CASTRO apud KOPENAWA e ALBERT, 2015, p.16]