ATLAS DA FALHA
com Paola Berenstein Jacques, Thais Troncon Rosa, Ana Luiza Freire, Aleida Bastioti e Rafael Simões

O ATLAS DA FALHA foi uma importante experiência metodológica e pedagógica desta pesquisa, desenvolvida ao longo do ano letivo de 2019 no âmbito do Atelier V de Projeto e Planejamento urbano do curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAUFBA. O componente curricular, último dos cinco atelier anuais de projeto que compõem a espinha dorsal do curso, é o único com foco no estudo de práticas voltadas ao estudo das cidades e do urbanismo. Tem, por isso, o desafio de apresentar em um curto espaço de tempo, não apenas as complexas dinâmicas envolvidas na construção da cidade como também os diversos campos de saber envolvidos no seu planejamento e pensamento crítico.

A estrutura metodológica experimental e aberta do curso coordenado por Paola Berenstein Jacques e Thaís Troncon Rosa permite que, sem abrir mão de importantes princípios norteadores e também dos acúmulos produzidos em anos anteriores, se possa sempre renovar a abordagem, agregando contribuições das equipes de estagiários docentes e respondendo aos interesses das turmas a cada novo ano. Assim, junto com as coordenadoras e os demais tirocinantes (Ana Luiza Freire, Aleida Bastioti e Rafael Simões), pudemos compor uma metodologia que agregasse elementos de interesse de cada pesquisador.

Em nosso caso, a criação de um atlas como eixo aglutinador das diferentes atividades a serem realizadas pela turma ao longo do ano foi apresentada aos alunos desde o princípio do percurso, a partir de referenciais teóricos e outros processos que vínhamos cruzando nesta pesquisa. Conhecendo a proposta pedagógica que há anos vem sendo experimentada pela professora Paola Jacques com diferentes colaboradores - de quem fomos alunos no mesmo curso, em 2011 - buscamos agregar as novas ideias em diálogo com alguns princípios que sabemos serem centrais, a despeito das variações propostas a cada ano: a ênfase no aspecto processual ao invés de no produto final, o acúmulo metodológico e a experimentação narrativa na tradução das experiências realizadas em campo.

O nosso interesse em pesquisar relações entre forma e processo, suporte e ação, motivou a proposição de que cada equipe elaborasse um objeto físico em que pudessem, a um só tempo, acumular, montar e expor/compartilhar os dados que fossem reunindo sobre suas áreas de estudo. A cada nova etapa, ao invés de uma explanação tradicional - com alunos se revezando para explicar imagens projetadas em slideshow -, a idéia era experimentarmos diferentes modos de exposição do material reunido, estimulando potencialidades expressivas diversas na criação de objetos, imagens, textos, instalações, jogos, etc. A tradução e o compartilhamento das informações levantadas não deveria submeter as imagens às palavras, ou a imaginação ao discurso técnico, prescindindo de uma apresentação e compondo, através da exploração autônoma dos fragmentos e das caixas, experiências de fruição que traduzissem aspectos das percepções obtidas no campo. Para isso, buscamos apresentar ao longo de todo o ano um repertório de possibilidades de expressão por meio de aulas, palestras e oficinas com convidados do campo das artes visuais, da experimentação editorial e do audiovisual, que não apenas apresentaram seus trabalhos como orientaram diretamente as equipes na elaboração dos seus trabalhos, em momentos chave do processo.

Vale lembrar que um dos princípios básicos da proposta pedagógica deste curso é a realização de um percurso de aproximação à cidade que, antes de apresentar ao aluno um conjunto de ideias e dados elaborados a priori para que sejam posteriormente projetados sobre a cidade, busca sensibilizá-los à dimensão mais física e intersubjetiva do campo. Por meio de leituras, debates e oficinas com pesquisadores e especialistas de diferentes campos de conhecimento voltados ao estudo das cidades, o aluno se aproxima primeiro de maneira subjetiva, implicando-se no contexto urbano, reconhecendo-o corpo-a-corpo e definindo seu campo a partir dessas experiências, para então começar a perceber suas dinâmicas e práticas, encontrar interlocutores e compreender as tensões em jogo. Só então, com algumas intuições levantadas em campo e elaboradas em sala, parte para um adensamento das mesmas a partir do levantamento de dados e documentos oficiais.

Nesse ano, o campo escolhido para o atelier foi o espaço intersticial formado pela falha geológica que divide a Cidade Alta da Cidade Baixa em Salvador, desde a Ladeira da Barra até o Largo do Tanque. Esperávamos encontrar ali questões que nos ajudassem a pensar não apenas essas zonas entre, mas os diferentes contextos que conecta e separa, pensando de maneira transescalar nas relações entre contextos mais pontuais e mais abrangentes. Dialogando com a ideia do intervalo que inspira a forma de pensar por montagens, esperávamos que desses espaços emergissem nexos que possibilitassem pensar questões muito além deles.
Toda a primeira metade do curso voltou-se aos movimentos de aproximação ao campo e, pensando no acúmulo entre as etapas – de maneira que não se construísse apenas como sucessão linear, mas que pudesse ser a todo tempo retomado e reelaborado a cada nova descoberta –, propusemos a criação de uma caixa por cada equipe, para que pudessem guardar os fragmentos colecionados ao longo do trajeto. Seguindo outro princípio que também já vinha sendo elaborado em anos anteriores, os alunos foram orientados a traduzir essas percepções em fragmentos narrativos, privilegiando o aspecto visual e imaginativo, a autonomia de cada fragmento e as potenciais relações entre eles, para numa etapa intermediária do percurso elaborarem montagens, aproximando-os. A ideia de Montagem Urbana, proposta Paola Berenstein Jacques e de grande interesse para a nossa pesquisa, era também um princípio por meio do qual os alunos buscariam encontrar, a partir do seu contato com o campo, questões por meio das quais prosseguir no aprofundamento investigativo-propositivo.

Na segunda metade do processo, o cruzamento entre as questões que emergiram das montagens foi dando lugar a novas chaves de acesso aos territórios, coimplicando as equipes e criando uma maior articulação entre as áreas e com o todo da Falha. Estas questões, mapeadas em todos os territórios, subsidiaram a elaboração de diretrizes gerais, por toda a turma, num percurso de gradativa dissolução das equipes rumo a esferas mais coletivas de construção do atlas. Nesse percurso, atividades envolvendo grupos maiores foram aos poucos expondo conflitos e fragilidades relevantes e latentes, nem sempre contornáveis, relacionados a responsabilidades coletivas e autonomias individuais. Apesar da liberdade dada pela equipe docente para que cada equipe pudesse propor rumos próprios à sua investigação, a partir de interesses pessoais dos seus membros e de elementos encontrados em campo, havia sempre o limite imposto pela própria coletividade, que obrigava ao agenciamento dos desejos diversos, individuais ou de grupos menores, na produção de um rumo comum que contemplasse a toda a turma.

Os questionamentos acerca da liberdade, por outro lado, eram contraditórios com algumas demandas frequentes de alunos por uma postura mais direcionada por parte dos professores, no que tange à abordagem de questões e temáticas específicas, ou de um planejamento mais rigoroso que lhes desse uma maior previsibilidade dos objetivos do processo. Ao invés de apresentar temas específicos para discussão, privilegiamos a apresentação de um conjunto amplo de ferramentas metodológicas e discursivas que amparassem a livre abordagem de temas pelos alunos, estimulando dessa forma também a sua autonomia em propor temas, fossem os de seu interesse pessoal ou aqueles sugeridos pelas incursões no campo. A manutenção da incerteza e da abertura como guias para um processo que se recompõe a cada novo passo é, no entanto, um grande desafio quando se tem um grupo de quase 40 jovens, ávidos por respostas e direcionamentos com os quais possam seguir com mais segurança em seu processo de formação. O terreno movediço dos processos experimentais demanda um forte senso de autonomia e posicionamento crítico e propositivo, que muitas vezes não é estimulado, ou muito pelo contrário, em outros ateliers.

O percurso de construção do Atlas da Falha foi um processo errante e, como tal, contou com o erro como aspecto fundamental. Sua realização ao longo do processo, em cada re-elaboração das caixas, mostrou-se ao final ter sido o verdadeiro atlas, prescindindo de sua concretização final em um objeto editorial - abortado na véspera pela turma, como relatamos na página 142 desta dissertação. As caixas, diferente de um arquivo para guardar os fragmentos, eram o próprio atlas em movimento, ao mesmo tempo espaço para guardar, compartilhar e mover o pensamento, permitindo sempre voltar às etapas anteriores com novos olhares. A re-elaboração constante das caixas ajudava ainda a reforçar o aspecto processual e a ideia de que, desde as primeiras etapas de aproximação, nos defrontamos com a elaboração de discursos de cidade, tanto formal como discursivamente. O atlas, acontecendo em ato, não era assim uma etapa para se chegar no projeto, mas em um só tempo aproximação e proposição, problematização e resposta. Apesar da tendência entre os alunos, estimulada pela própria formação, de perder-se nas especulações formais em detrimento do conteúdo, buscamos sempre reforçar que a elaboração das caixas não deveria se resumir ao seu desenho, mas sobretudo à sua capacidade de adaptar-se aos novos fragmentos e à experiência de fruição que a cada etapa era proposta, como forma de compartilhamento de uma ideia de cidade.