ATLAS PERTO DE LÁ 
com Patricia Almeida
Chicago, 2019

Este Atlas se interessa pelo que está entre. É, em si, um objeto entre a caixa, a mesa e a exposição. Entre as ações de guardar, montar e de expor. Entre formas de abordagem arquivística, editorial e expográfica. Entre objeto, espaço e processo. Mas é, sobretudo, algo que encontra seu sentido através da ação coletiva, das experiências e das experimentações de que pode ser suporte.

No início do século XX, o pensador alemão Aby Warburg propôs um nova forma de abordar a história da arte. Como resposta aos fechamentos do pensamento positivista e do crescente nacionalismo que levaria a duas grandes guerras e aos regimes fascistas em países da europa, Warburg propôs uma forma de pensar radicalmente aberta ao inesperado. Ao aproximar imagens de tempos e contextos diversos, ele buscava o que chamava de “relações íntimas e secretas”, que se revelavam não na singularidade de cada imagem, mas nos intervalos entre elas. Colocando-as em movimento, como quem revolve a terra para torná-la mais fecunda, Warburg compunha constelações de pensamento de forma quase mística, fazendo emergir leituras transversais e inesperadas da história da cultura.

Partimos dessa hipótese para convidar todos os artistas, curadores e o público envolvido no projeto Perto de Lá a construírem este atlas conosco, seja alimentando este arquivo coletivo, manipulando-o em busca de relações íntimas e secretas, ou mesmo usando a mesa para trabalhar e propor atividades. A ideia é trabalharmos com imagens – não apenas fotografias ou desenhos, mas “imagens de pensamento”, que podem também incluir pequenos textos. Quanto maior a diversidade de olhares e linguagens, melhor. A ideia não é elaborarmos qualquer tipo de síntese ou resposta unificadora, mas sim de olharmos de forma caleidoscópica para as nossas diferenças. Esperamos que nesse processo possamos ver - e construir - espaços entre nós.

Daniel Sabóia e Patricia Almeida - agosto de 2019


O texto acima acompanhou a instalação montada no interior da Comfort Station, antigo abrigo público construído em 1927 e desde 2010 restaurado, ocupado e gerido por um grupo autônomo de artistas, curadores e ativistas comunitários da região de Logan Square, na cidade de Chicago. Entre agosto de 2019 e fevereiro de 2020, o projeto Perto de Lá/ Close to Therepromoveu encontros entre 20 artistas baseados nas cidades de Salvador e Chicago. Em duas viagens que levaram os grupos de 10 artistas de cada cidade à outra, foram realizadas conversas, visitas, apresentações e confraternizações no intuito principal de promover o intercâmbio e a colaboração entre artistas, instituições, programas de residência artística, curadores e pesquisadores das mais diversas linguagens, como dança, música, literatura, performance, artes visuais e arquitetura.

A instalação proposta a convite dos organizadores do evento, foi pensada como forma de experimentar pressupostos que vinham sendo levantados pela presente pesquisa, mas que também constituem um particular campo de interesse do coletivo de criação que integramos, a TANTO. A proposição de suportes e espacialidades como expansão do pensamento gráfico, “espaços de pensamento” que possibilitam e convidam à ação coletiva, vem sendo experimentada nos últimos anos em diferentes ocasiões, por meio de publicações e instalações artísticas.

Na Comfort Station, propuzemos um espaço de reunião e trabalho que pudesse fomentar trocas e mapear relações entre o grupo, suas pesquisas, os lugares visitados, as ações propostas e os pensamentos compartilhados. Uma espécie de catálogo do processo produzido em tempo real e expandido para o espaço, a um só tempo expondo e compondo um olhar coletivo sobre a experiência, tecendo assim aproximações e intervalos de contato. Existente apenas enquanto utilizado, essa espécie de atlas “em ato” pressupõe a coimplicação entre forma e pensamento, espaço e ação, provocando os gestos de arquivar, montar, editar e exibir, por meio de suas formas análogas.

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1 O projeto teve organização e curadoria de Jordan Martins, Lanussi Pasquali e Juci Reis, e foi possibilitado pelo financiamento da MacArthur Foundation’s International Connections Fund.