ITAPAGIP3
com Patricia Almeida e Fabio Steque
Salvador, 2012


“Itapagipe: pedra que avança para o mar. O mar, a praia, a Maré. Dois lados separados por um caminho de areia, um muro invisível. Muros visíveis, vazios rodeados por uma cidade densa, rica em cores, imagens e sons que se sobrepõem nos espaços públicos partilhados-disputados por mais de 170 mil pessoas. Lugar presente no imaginário da cidade. Memória de passado industrial, religioso, rural, aristocrático, precário. De mansões, galpões e palafitas. Barcos, sombreiros, festas do mar, dos santos e das comidas. Gente de dentro, de fora, de lá e de cá.” 1

A experimentação do pensamento desenvolvido nesta pesquisa não foi realizada apenas numa temporalidade simultânea a ela, mas também muito antes que nos déssemos conta de suas principais questões, da forma como as colocamos aqui. Em 2012 realizamos juntamente com Patricia Almeida e Fábio Steque o Trabalho Final de Graduação intitulado ITAPAGIP3. Dedicados a um extenso estudo urbanístico da Península de Itapagipe, território ao norte do centro da Salvador que abriga uma parcela significativa de sua população em 14 bairros diferentes, experimentamos diferentes metodologias de apreensão e de tradução visual – gráfica, cartográfica, fotográfica e audiovisual dos dados levantados.

Após realizarmos derivas, interlocuções em torno da memória e levantamentos de informações por meio de documentos e estudos dedicados à região, recorremos a um primeiro esforço de montagem textual a partir da metodologia do “Teatro de Atores Sociais”2, criando um diálogo fictício com as falas reais de moradores, ativistas, técnicos, poder público e privado. Na tentativa de atravessar o denso campo de análise construído pelo acúmulo de um amplo material e das questões que começavam a se mostrar dos primeiros cruzamentos realizados, buscávamos linhas de interpretação que nos apontassem os caminhos a seguir numa etapa do trabalho mais voltada à proposição de diretrizes de planejamento urbano e projeto arquitetônico.

No entanto, afogados em nosso próprio mar de dados, não conseguíamos articular um discurso num conjunto de direcionamentos claros e objetivos que resumisse uma experiência de tamanha imersão na complexidade desse território. Percebemos então que precisávamos voltar ao campo e olhar novamente a peníncula com o olhar adensado por todo o processo, para conseguirmos avançar. Partimos com uma câmera e registramos em video o que não conseguíamos dizer, para enfim entendermos que eram aspectos mesmo indizíveis das nossas apreensões, indraduzíveis por meio de diagramas ou cartografias, mas muito visíveis no video de quatro minutos que montamos. A peça audiovisual não pretendia ter um papel informativo ou de relato para o trabalho e não é sequer analisado, explicado ou descrito do dossiê. Oferece apenas o que tem a mostrar: uma constelação de imagens que nos serviu como uma espécie de portal, por onde conseguimos finalmente atravessar, condensando poeticamente todas as percepções sutis gravadas em nosso corpo.

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1 PARVU, Sandra; GUEZ, Alain. Avoiding Images: a play for thirteen voices. Candide No. 6, 10/2012, p. 73–92.
2 Descrição do vídeo, disponível no link: www.tantocria.com.br/itapagip3
︎"ITAPAGIP3 - apreensão, interpretação e síntese"- Daniel Sabóia, Patricia Almeida e Fabio Steque

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