NO MEU CORPO O CANTO
com Alex Simões, Fabio Steque e Patricia Almeida
Salvador, TANTO, 2020


A publicação é resultado da colaboração, entre a TANTO (Daniel Sabóia, Patricia Almeida e Fabio Steque), com o poeta e performer Alex Simões. Reunidos no contexto da segunda edição do projeto Incubadora de Publicações Gráficas da galeria RV Cultura e Arte, nos debruçamos sobre um conjunto de poemas visuais que vem sendo desenvolvido desde 2018 por Alex, para criar o livro-objeto.
Em sua deambulação ciclista pela cidade, o poeta captura com a câmera do celular fragmentos poéticos e tipográficos da paisagem urbana, que são posteriormente decompostos em fragmentos ainda menores, por sua vez remontados em estruturas livremente insipiradas em formas poéticas breves, como os haikais, os orikis e os poemínimos. Os experimentos resultantes são postados nas redes sociais com a hashtag #experimentoscomletrasurbanas. Nesse exercício de desmontagem e remontagem, o poeta compõe novas paisagens, se apropriando do caráter gráfico e textual dos letreiros de diferentes contextos urbanos que mistura na composição dos seus poemas.

O diálogo entre os três artistas graduados em arquitetura e urbanismo e o poeta se inicia no movimento social Desocupa Salvador, em 2010, na mobilização de ações contra a privatização e espetacularização dos espaços públicos de Salvador. Desde então, o grupo tem se reencontrado em diferentes contextos políticos, profissionais e artísticos, quase sempre permeados pela experiência urbana e por uma abordagem crítica, política e poética da cidade – dois deles reunidos também nesse conjunto de experimentações coletivas (Terra Quente e Perto de Lá).

O processo de criação da publicação partiu de um olhar coletivo sobre as imagens produzidas nas errâncias do poeta em Salvador. A intenção era reconhecer a cidade que pulsava naquele conjunto, através da coleção de fragmentos reunidos e já remontados. Partimos de um exercício de mapeamento dos lugares de cada captura, registrados metodicamente por Alex. Com eles desenhamos caminhos, reconhecemos padrões e limites de circulação e abrangência do olhar – uma forma de criarmos (ou reconhecermos) uma cartografia comum, um território poético sobre o qual caminhar coletivamente.

Os caminhos percorridos por esses encontros estão cartografados sobre o mapa da cidade nas linhas do Astrolábio de Sete Faces, poema em que ecoam as questões encontradas e discutidas pelo grupo a partir do acervo de experimentos.
Buscamos aproximar diferenças, como as do tipo de olhar que o poeta lança sobre a cidade e aquele lançado pelos arquitetos-urbanistas. Se o olhar técnico destes é demasiadamente intrumentalizado e normatizado pela ciência urbanística, e assim tende a observar a cidade de longe e de cima, geometrizando as relações e produzindo sínteses controladas, a apreensão do poeta é de ordem radicalmente diversa. Ele não tenta com seu gesto de captura e geolocalização produzir uma documentação ou uma representação de uma ideia unitária e abstrata de cidade. Tenta, antes disso, mediar sua relação com o conteúdo poético inscrito em suas paredes, em busca de mensagens ocultas e potenciais, possíveis apenas pelo embaralhamento e pela fragmentação do discurso visual que a cidade lhe apresenta.

Defrontado à radical alteridade da cidade, diante dos enigmas de inscrição efêmera que se projetam sobre sua retina desde as paredes do imenso labirinto, o poeta vai criando seu mapa. Seu estado de corpo errante (JACQUES, 2014) experimenta a cidade de dentro e ele a recria antropofagicamente, visualmente, cartograficamente. Busca situar-se, e para isso cria sua própria cidade, poética e igualmente indecifrável.

Segundo Paola Berenstein Jacques essa postura errante já, em si, uma resistência aos processos de homogeneização e anestesiamento da experiência urbana. “As narrativas errantes”, diz Jacques, “foram escritas nos desvios da própria história do urbanismo” (JACQUES, 2014, p.11). Citando Michel de Certeau, lembra que a narrativa “não se contenta em dizer o relato, ela o faz” (JACQUES, 2014, p.17), postulando que a narração já é, em si, um outro tipo de experiência.

Pensando nesse sentido, buscamos juntos propor uma experiência errante de fruição em forma de livro-objeto, que entendemos também como um tipo de experiência urbana. Uma narrativa que se desdobra nas mãos como labirinto, ou como “bicho” (no sentido empregado por Lygia Clarck): dobrada em 16 pedaços, a folha dispõe em duas espirais - uma de cada lado do papel - 32 poemas visuais. No manipular incessante provocado pela dobradura, o leitor vai criando geografias e espacialidades próprias, uma leitura que implica o corpo e leva à deambulação pelo conteúdo.