TERRA QUENTE
com Tiago Ribeiro, Fabio Steque e Patricia Almeida
Acupe - Santo Amaro da Purificação, TANTO, 2019


TERRA QUENTE (TANTO, 2019) é o nome da publicação que reúne o conjunto de relatos, ensaios e narrativas produzidos no contexto da residência artística do Projétil Billy The Kid na região de Acupe1, distrito de Santo Amaro da Purificação, no recôncavo baiano. Durante os meses de junho e julho de 2018, um grupo bastante heterogêneo de artistas de Salvador2 esteve com moradores locais, organizadores e participantes da manifestação popular Nego Fugido. Das estadias prolongadas e imersivas dos artistas residentes às participações mais esporáticas e pontuais dos colaboradores, o grupo realizou pesquisas, oficinas, performances e instalações, enquanto também se somava ao mutirão autogerido de construção do Centro Cultural de Acupe - Nego Fugido, tendo sempre como pano de fundo as aparições do grupo nos finais de semana do mês de julho e os seus ecos nos outros períodos ao longo dos meses.

O Nego Fugido é uma tradição quilombola com cerca de 200 anos, em que homens (e mais recentemente também mulheres) encenam/incorporam escravizados, capitães do mato, soldados e um rei, para recontar a história da escravidão e fabular uma libertação conquistada pelas próprias mãos dos negros subjugados. As aparições são um acontecimento ao mesmo tempo cênico e mágico, performático e ritualístico, estético e político, sem se preocupar em se definir precisamente de uma maneira ou de outra. Todos os domingos do mês de Junho, os “negas” – como são chamados os feitores incorporados em membros mais antigos do grupo – saem pelas ruas de acupe vestidos com saias confeccionadas com folhas secas de bananeira, as peles pretas pintada de tinta ainda mais preta e as bocas transbordando tinta vermelho-sangue. Cada um vai tocando a sua corda de escravizados – estes incorporados pelos membros mais novos. Um rei protegido por dois guardas é progressivamente acuado pelos feitores, que se insurgem em breves lampejos contra ele, para logo depois voltar a acuar seus escravizados, que a cada intervalo caem e agonizam sobre o asfalto. Os atabaques em profusão adensam a vibração dos acontecimentos, de significado ancestral e em parte oculto, apenas conhecido por iniciados. Desde a entrada na mata, a cada ano, para colher as folhas de bananeira secá-las e costurá-las, até as aparições em percursos sempre imprevistos pelas ruas da cidade, o Nego Fugido tem um sentido de cura para a cidade, tanto em uma dimensão espiritual, como também cultural e política.

Concebida após a realização da residência, a publicação teve o desafio de reunir e relacionar o conjunto difuso, fragmentado e bastante heterogêneo de contribuições que resultou desse processo. Frente ao denso turbilhão de informações e tensões que atravessou o grupo nesses encontros, a escolha editorial foi a de deixar o processamento da experiência coletiva em aberto, a ser ou não realizado por cada participante e cada novo leitor.

Para isso, o conteúdo se apresenta como um conjunto embaralhado de pensamentos, como notas encontradas que, dispostas sobre uma mesa, vão aos poucos revelando o emaranhado de experiências individuais e coletivas por meio das reflexões, imagens e memórias postas em movimento. A experiência se apresenta, assim, sem qualquer pretensão de unidade ou linha mestra. Nada a dizer, somente a mostrar, como diz a célebre frase de Walter Benjamin. Sua fruição é a de quem consulta uma gaveta de fotos e cartas, um arquivo inclassificado, a ser constantemente redescoberto e reinventado.

1 O projeto concebido e coordenado por Tiago Ribeiro teve apoio do Edital Setorial de Artes Visuais 2016, do Fundo de Cultura do Estado da Bahia.
2 Tiago Ribeiro (bailarino), Alex Simões (poeta), Mônica Santana (atriz/jornalista), Danielle Andrade (contadora de histórias), Fabiana Marques e Luisa Hardman (produtoras culturais), Daniel Sabóia e Patricia Almeida (arquitetos e artistas gráficos), Flavia Couto (performer), entre outros.


Leia aqui o relato-percurso da oficina de contação de histórias e criação de imagens com sete crianças de Acupe, proposta por por Danielle Andrade, Patricia Almeida e Daniel Sabóia
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