ATLAS FOTOGRÁFICO DA CIDADE
DE SÃO PAULO E ARREDORES

Tuca Vieira - São Paulo, 2014-2016

Para compor o seu Atlas Fotográfico de São Paulo e Arredores, o fotógrafo paulistano Tuca Vieira percorreu, entre 2014 e 2016, mais de 3mil quilômetros e 19 municípios conurbados na formação da maior metrópole da América Latina. Seu percurso atravessa não apenas uma imensa heterogeneidade de contextos urbanos, mas diferentes escalas temporais e espaciais, cada uma delas mediada por tipo de representação associada a um dispositivo tecnológico que a produz ou apresenta ao manuseio, operação ou leitura. O trabalho se estrutura sobre uma regra muito simples e bastante objetiva: produzir fotografias da paisagem urbana em pontos espalhados por seu mapa, seguindo as áreas demarcadas pelas páginas do Guia Quatro Rodas de Ruas da Cidade. Ali, o território da grande São Paulo aparece dividido em 203 quadrados de 3x3 quilômetros de lado, dispostos em uma grade ortogonal sobreposta aos limites da metrópole.

O fotógrafo segue o rigor do experimento a que se propôs, cruzando diferentes escalas de abstração representativa do espaço urbano: percorre primeiro as linhas, palavras e ícones que codificam o espaço em cada página dupla do Guia para, num segundo momento, percorrer os mesmos espaços virtualmente através dos registros do Google Street View, analisando as potencialidades da paisagem hiperfotografada pelos dispositivos carto-fotográficos da plataforma digital, na busca por potenciais enquadramentos. Apenas então parte rumo à experiência corpo-a-corpo com a cidade. Se na ponta inicial do seu procedimento o artista folheia o espaço da cidade no pequeno guia, percorrendo com os dedos as ruas representadas em grau máximo de síntese e abstração gráfica, na outra ponta percorre seus espaços de corpo presente e é atravessado por seus múltiplos fluxos. Atento ao aos detalhes e ao rigor compositivo de cada cena individual, vai tecendo cumulativamente uma outra imagem, multifacetada e heterogênea.

Do guia analógico obsoleto de papel ao mapa digital de última geração que cartografa a cidade quase em tempo real e o apresenta de forma interativa na tela do smartphone, Tuca Vieira parte em seguida para a cidade munido de uma antiga e pesada câmera de grande formato, analógica, que instala sobre um tripé num lento ritual de chegada, permanência e contemplação. O aparelho, difícil de carregar e instalar, paradoxalmente não chama tanta atenção, pois confunde-se com os teodolitos utilizados cotidianamente pela prefeitura para atualizar a cartografia do espaço. Sua forma é mais próxima do que a de qualquer câmera atual ou sequer recente. Da imagem imediata e constantemente atualizada nos dispositivos eletrônicos à imagem gravada de maneira velada e só depois revelada e ampliada, Tuca Vieira vai transitando entre diferentes distâncias e temporalidades, colecionando fragmentos da paisagem complexa e diversa da cidade em que sempre viveu, mas conhece de forma restrita e parcial, como é comum.

A coleção reunida é exibida em ampliações de pequeno e idêntico formato, montadas lado a lado em conjuntos irregulares espalhados pelas paredes da galeria (Casa da Imagem, 2016) – sem necessariamente reproduzir sua localização ou relação no mapa-guia. O retrato multifacetado da cidade espalhado pelo espaço arquitetônico permite percorrer sua múltipla paisagem, variando com o caminhar a distância do olhar, para num passo apreender os detalhes de cada fragmento extraído da paisagem e, no outro, tentar relacionar as partes em espaços produzindos mentalmente. Essas novas camadas de visualidade se somam às existentes, produzindo para cada espectador diferentes possibilidades de composição e complexificação do imaginário urbano paulistano. Um retrato que, composto no atravessamento de sucessivos espelhos, reflete e borra a imagem da cidade.



︎︎︎︎︎︎




︎ Imagens do Atlas Fotográfico, do Mapa-índice do Guia Quatro Rodas de Ruas de São Paulo e frames do mini-documentário produzido pela Revista Piauí sobre o trabalho de Tuca Vieira (abaixo)

︎PDF (em breve)