#ATLAS VERONA
Verona, IT, 2016-2018
Laboratoire Architecture Anthropologie LAA­-LAVUE
Alessia de Biase e Piero Zanini (coord.)


Um atlas, mais do que uma forma física, concreta, é uma maneira de pensar e de manipular ideias. Nesse sentido, pode se constituir antes como mote, um ponto de partida para a instauração de uma esfera de compartilhamento e trabalho conjunto, empreendido no estudo de determinada questão.É o caso das pesquisas realizadas na cidade de Verona entre os anos de 2016 e 2018, pelo grupo de pesquisa francês Laboratoire Architecture Anthropologie LAA­-LAVUE, baseado em Paris e coordenado pelos pesquisadores italianos Alessia de Biase e Piero Zanini. Nas palavras dos pesquisadores, os dois ATLAS# realizados por meio de workshops com moradores, comerciantes e todo tipo de praticantes dos espaços para os quais o grupo se voltou no estudo, funcionaram antes de tudo como “uma metáfora de uma forma de trabalhar” (DE BIASE et. al, 2018A p.7)., ou “um instrumento para começar a conversar” (DE BIASE et. al, 2018B, p.13).

O grupo de pesquisa tem longa experiência com processos participativos de mapeamento das transformações urbanas, ou “situações emblemáticas”, situadas no cruzamento “entre um lugar, pessoas e tempos da cidade” (DE BIASE et. al, 2018A p.7). Praticando um tipo de aproximação à cidade que privilegia o aspecto qualitativo ao invés da representatividade estatística das informações levantadas em grande escala demográfica, o grupo reconhece a parcialidade, incompletude e limitação inerente a esse tipo de abordagem, mas prefere investir na profundidade que se pode atingir por meio de contatos mais intensos, pela densidade de experiência que se pode acessar na interlocução com aqueles que vivenciam o cotidiano da cidade. Seu objetivo, ademais, não é exaurir as questões, mas levantar por meio desse gesto atento de escuta, novas e inesperadas perguntas sobre o lugar e suas dinâmicas.

As duas edições do Atlas# se colocam como mote para o trabalho coletivo ao criarem uma espécie de horizonte comum, partilhado, objetivo – quando na verdade o fim é, sobretudo, o próprio meio, o processo de trocas, um exercício coletivo do olhar sobre o tempo, que vai desvelando camadas da experiência urbana difíceis de perceber ou de registrar. Mais do que na montagem editorial, como temos investigado com mais interesse nessa pesquisa, os trabalho concentra seus esforços na elaboração cartográfica dessas questões, acumulando em sucessivos esforços de interlocução e tradução gráfica, sínteses e espacializações de questões subjetivas, um conhecimento que vai desfolhando o tempo da cidade. Os dois livros resultantes de cada processo - uma voltado a estudar as temporalidades em um bairro específico e central e outro dedicado ao mapeamento de do amplo conjunto de fortificações antigas - não apresentam propriamente uma montagem de imagens com nexos a emergir do seu manuseio; organizam-se mais como relato das aproximações e das questões que emergiram no processo de elaboração do atlas, em ato e in loco.

A aproximação aos temas abordados em cada volume é diferente, pois é premissa básica para a pesquisa que cada contexto aponte uma metodologia própria, experimental, encontrada na prospecção em campo. Ao invés de aplicar a diferentes contextos um grupo de questões e categorias de análise definidas a priori, como é o caso em grande parte dos estudos desse tipo, a proposta da do grupo é que uma das partes mais importantes do processo seja justamente a busca por essas questões. Para tal, realizam-se aproximações gradativas, como caminhadas e interlocuções, em que vão sendo colhidas informações, registradas por meio de cartografias subjetivas e objetivas, num processo de adensamento que vai, por meio de sobreposições e cruzamentos, fazendo emergir novas compreensões e novas questões, próprias de cada contexto.

O primeiro volume do Atlas# é dedicado a um bairro de Verona - Veronetta - localizado entre o seu centro e sua periferia. Volta-se às diferentes dimensões temporais que se sucedem e se sobrepõem no bairro, e aos diferentes usos e grupos sociais que ali habitam, estudam e trabalham. Cruzando trajetórias biográficas de habitantes com um olhar sobre a história comercial e sócio-econômica do bairro e a evolução legislativa nacional referente ao comércio, procura-se entender a dinâmica das transformações urbanas de maneira atravessada pelas transformações do tecido social e jurídico.
O estudo é realizado por meio de uma colaboração de caráter fortemente transdisciplinar, com participação de pesquisadores acadêmicos, instituições públicas, associações e habitantes. Da pesquisa acadêmica, com coordenação do LAA, participaram pesquisadores do campo da arquitetura e urbanismo, comunicação, cultura, antropologia social e direito de diferentes universidades na França, Itália e Áustria. Além disso, participaram 22 associações locais e um total de mais de sessenta pessoas, entre habitantes, residentes, comerciantes, atores políticos dos mandatos administrativos anteriores, técnicos das instituições locais, arquitetos e urbanistas.
A aproximação entre os pesquisadores, a cidade e os habitantes, tem a cartografia como elemento central: é o registro das informações levantadas, ao mesmo tempo que sua espacialização no território do bairro; é também o meio para o processamento dessas informações, através das sínteses gráficas que vão traduzindo as informações da linguagem verbal à espacial; é ainda o instrumento de mediação entre pesquisadores e interlocutores, o meio através do qual os primeiros se inteiram do território, e os últimos encontram uma outra dimensão para a sua percepção de questões cotidianas; por fim, é o meio principal através do qual emergiram as hipóteses a aprofundar, numa nova cartografia ou processo.

Num processo de análise entre o dedutivo, que conclui causalidades, e o irruptivo, que se abre às questões imprevistas, as cartografias vão sendo cruzadas e sobrepostas, em busca de compreensões mais complexas para os dados levantados em cada etapa. Um mapeamento objetivo de usos, somado a um mapeamento de atores sociais e a um mapeamento de horários, leva à dedução de pólos articuladores de fluxos, por exemplo. As interlocuções, por sua vez, introduzem elementos subjetivos que, através da espacialização nas cartografias, vão se cruzando na prospecção de diferentes temporalidades e fazendo aos poucos emergir novas compreensões, invisíveis e impossíveis de serem percebidas através de categorias genéricas ou puramente objetivas. Por meio do atlas, a comparação das imagens coletivas produzidas possibilita a apreensão de relações transversais entre as questões levantadas.

Diferente de outros exemplos trazidos aqui, não é apenas no encontro entre duas imagens que emergem os nexos inesperados, mas principalmente no atravessamento entre diferentes “especialistas”: dos técnicos, que conhecem as lógicas mais abrangentes dessa ideia abstrata que é a cidade, aos seus praticantes ordinários, cotidianos, que acumulam percepções articuladas pelo corpo e pela memória, entre o imediato e a longa duração. Os choques intensos promovidos por esses encontros entre o saber técnico e a alteridade radical que é própria da cidade, torna patente a necessidade de experimentar criticamente novas metodologias a partir de cada contexto. Além disso, demonstra que, mais do que nas informações relatadas pelo objeto que resulta dos encontros, a potência maior de um atlas urbano pode residir na articulação de novas redes — ou no fortalecimento das existentes — que apontam para realizações futuras, novos atlas ou novos motes, numa elaboração constante e coletiva do pensamento sobre o lugar em que se vive e pelo qual se luta.



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