AS CAIXAS DE DUCHAMP
Marcel Duchamp, 1914-1969


Marcel Duchamp foi um exímio construtor de enigmas e um implacável demolidor das estabilidades que o mundo da arte sempre volta a erguer após gestos de ruptura. Sua atitude nos ensina, segundo Octavio Paz, “que o fim da atividade artística não é a obra, mas a liberdade. A obra é o caminho e nada mais” (PAZ, 2002 [1968], p. 63). Suas obras sempre miravam a demolição das formas engessadas e dissociadas da atividade intelectual como parte do gesto criativo. Para ele, a arte “puramente retiniana” deveria ser colocada “novamente a serviço da mente” (TOMKINS, 2007, p.22), por isso começa a inserir em suas obras pequenos títulos, desde quando ainda pintava. A intenção, longe de legendá-las, era “direcionar o pensamento para áreas imprevisíveis”. (TOMKINS, 2007, p.182).

Com sua postura sempre altamente crítica e autoirônica, evitava levar a si mesmo muito a sério e utilizava suas criações como veículos para questionar o próprio estatuto de arte. O exemplo mais emblemático dessa característica em seu trabalho são os readymades, mas Duchamp experimentou muitas outras formas expressão de maneira precursora e inspiradora de movimentos de gerações posteriores, como a arte cinética e a performance, além de uma forma bastante específica de suporte, que explorou desde 1914 até a sua morte: as caixas — objetos híbridos entre entre o catálogo, a escultura, a gravura, o mapa e o manual de instruções.

Por acreditar que artista e espectador compartilham o processo de composição da obra, Duchamp procurava deixar seus trabalhos sempre a um passo atrás do ponto em que, se dissessem mais, correriam o risco de tirar do espectador a liberdade de construir seus próprios nexos. Com as caixas, o artista convida o fruidor a não apenas interpretar, mas a montar com suas próprias mãos e assim encontrar relações entre fragmentos, potencializando o diálogo e a imprevisibilidade dos significados que dele podem emergir.

A primeira caixa, intitulada apenas como “A Caixa” (La Boîte, 1914), é uma embalagem de papéis fotográficos Kodak que carrega notas escritas à mão e um desenho, reproduzidos em 16 páginas como fac-símiles. Com tiragem de 5 exemplares, a obra foi um protótipo para outra, muito mais ambiciosa, realizada 20 anos depois, com o nome de Caixa Verde (Boîte Verte, 1934). Nesta, com tiragem de 300 exemplares, 96 fac-símiles de fotografias, desenhos e notas datadas entre 1911 e 1915 são apresentadas de maneira embaralhada dentro de uma caixa revestida de tecido verde e com o título da obra maior de Duchamp, “La mariée mise à nu par ses célibataires, même”. Conhecida também como O Grande Vidro, a obra foi executada por Duchamp entre 1911 e 1923, quando foi declarada “oficialmente inacabada” pelo artista. Suas representações enigmáticas só podem ser compreendidas através das notas, primeiro d’A Caixa de 1913, depois da Caixa Verde de 1934 já no fim da vida de Duchamp, das 79 notas adicionais de sua última caixa, À l’Infinitif, produzida em 1966. Nesta, as notas em fac-símile vem organizadas em sete pastas: “Especulações, Dicionários e Atlas, Cor, Cor, Mais referências ao Vidro, Aparência e Aparição, Perspectiva e O Contínuo.

Para Duchamp, mais importante do que a obra em si, era o pensamento do artista e o gesto de, ao montar ideias, criar uma obra. E o que Duchamp fazia com suas caixas era compartilhar esse gesto com o fruidor. A ideia de “fruição ativa” ou “obra aberta” é aqui levada ao limite, transformando o espectador em montador. O enigma se apresenta como um convite à apropriação e à expansão dos sentidos contidos nos fragmentos de pensamento rabiscados em cada nota. Em outras caixas, como as Caixas-em-Valise (Boîte-en-valise, 1941) e Eau et gaz a tous les étages (1959), Duchamp reúne reproduções de telas, desenhos e esculturas em miniatura, criando uma espécie de exposição retrospectiva portátil, manipulável na composição de novas relações entre as obras.

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