BILDERATLAS MNEMOSYNE
Aby Warburg
Hamburgo, 1924-1929


O Atlas de Imagens Mnemosyne (1824-1929) é o principal legado epistemológico, metodológico e crítico da obra intelectual de Aby Warburg (1866-1929), um inquieto pensador da arte e da cultura européias, caçador de fantasmas, manipulador de polaridades e criador de labirintos. O intelectual alemão dedicou sua vida à observação atenta das fantasias humanas manifestadas pela arte, contrapondo os engessados esquemas estilístico-formais da história “oficial” da arte em sua época. Com a máxima de que “o bom Deus se esconde nos detalhes”, Warburg reunia pequenas pistas deixadas em forma de expressão pictórica — seja por cosmólogos ou cientistas, cartógrafos ou artistas — tentando tornar visíveis novas relações e problemas.

Warburg empreendia seu esforço teórico e metodológico contra as fronteiras disciplinares que haviam se fortalecido como nunca no século XIX. Criava aberturas, espaços instersticiais, através das polaridades que colocava em jogo por meio das suas montagens. Transitava, pois, nos intervalos: entre o consciente e o inconsciente, a memória individual e a coletiva, a ciência e a religião, a fantasia e a razão, a história, a antropologia, a astrologia e tantas outras formas de manifestação da fundamental inquietação do homem (europeu, mas não só) diante da sua incomensurável conexão com as forças do universo — e logo, consigo mesmo.

Sua busca era por questões de amplitude cósmica, manifestadas em pequenos detalhes. Analisava o movimento dos corpos em busca das formas patológicas [Pathosformel] em que se expressam sobrevivências [Nachleben]: uma dinâmica complexa de forças que residem sob formas, transmitidas e transformadas através dos tempos. Olhando através (e além) das janelas criadas no período Renascentista, quando Europa forjava para si uma identidade de herança greco-romana, desmistificava essa “origem”, apresentando indícios de que se tratava, antes, de um momento de migração internacional das imagens.

Iniciado em 1924 e interrompido em 1929, por conta da morte do seu idealizador, o Atlas de Imagens Mnemosyne consistia em um conjunto de imagens que reproduziam fragmentos de pinturas, textos, documentos, livros, cartografias, genealogias e recortes de jornal. Dispostos lado a lado em painéis de madeira de 2m x 1,5m e fixados de maneira sempre provisória por meio de pinças metálicas, os fragmentos eram facilmente deslocáveis, possibilitando a incessante busca por novos arranjos. O registro fotográfico das configurações parciais que hoje permite analisar as variações dos painéis, era também um meio para expô-los em aulas ministradas por Warburg, por meio de projeções de slides. Foram feitos três registros, o último e mais conhecido postumamente, em 1929. Nele, 970 imagens são dispostas em 63 painéis, demonstrando diferentes migrações de elementos da cultura pagã e oriental e da idade média através da cultura clássica e humanista do Renascimento, até registros de fatos históricos contemporâneos à sua execução.

O projeto warburguiano é nomeado segundo dois deuses da mitologia grega: de um lado Mnemosyne, deusa da memória, do outro Atlas, portador dos céus e conhecedor dos astros, cujo nome havia se popularizado como nunca no século XIX através dos atlas científicos. Reúne, já em seu nome, duas maneiras inventadas pelo homem para defrontar-se com o incomensurável e situar-se no mundo: o mito e a ciência. Mnemosyne deixava claro qual o tipo de lógica temporal regeria os movimentos: o tempo da memória e seus anacronismos, surpresas e associações imprevistas. Atlas, por sua vez, aponta a longa duração — das cosmologias à geologia, olhares lançados sobre longas escalas temporais em busca de mediação entre o homem e o mundo que habita, tentando dominar. Aponta também para o modo de apresentar o conhecimento que esses atlas científicos fizeram proliferar e que havia sido impulsionado recentemente pelo advento da fotografia.

A reprodução da imagem fotográfica possibilitou uma revolução na forma como transitavam as imagens e seu movimento em liberdade na mesa de Warburg era animado tanto pela postura do cientista, que planeja, reúne, seleciona, analisa, interpreta e relaciona, como pela postura do adivinho, do cartomante, que manipula suas cartas para “inventar vínculos, mediante ‘analogias’ interpostas, entre ordens de realidade incomensuráveis: os astros, os deuses, os animais, os homens” (DIDI-HUBERMAN, 2013, p.33).

Como nota Leopoldo Waizbort, “Warburg pensava com imagens consteladas em montagens, e seu Atlas deveria demonstrar essa possibilidade.” (WAIZBORT, 2015, p.18). Mnemosyne era assim, ao mesmo tempo, uma superfície de trabalho e de exposição de ideias, mas que também demonstra uma forma de pensar que se articula por meio das imagens, produzindo um território de inesgotável movimento, pois as imagens sempre chamam novas imagens e sempre se abrem a novas constelações. Nesse movimento, abre-se também o tempo, na alternância entre as longas durações e os múltiplos instantes singulares interpostos. Abre-se um espaço de pensamento, no espaço negativo, vazio, entre os fragmentos: o intervalo [Zwischenraum]. Nesse espaço residem, para Warburg, as relações invisíveis e imprevistas a serem encontradas pelo montador ou pelo leitor da montagem. Nele se abre, sobretudo, o próprio pensamento ao inesperado, aos sentidos encontrados, constelados de maneira sempre instável, porque muito sensível aos atravessamentos que exigem reconfigurações. O pensamento assim apresentado, aberto como um enigma, concentra a enorme potência dos múltiplos caminhos que permite percorrer, para muito além do que as imagens, objetivamente, apresentam.[

A imobilidade de atlas, como a dos corpos congelados nas imagens, é assim posta em movimento pela força da memória, que nos revela as formas como forças transformadoras e em constante transformação.

Herdeiro de uma rica família de banqueiros alemães, Warburg abdicou da primogenitura ainda criança, propondo a seu irmão que, em troca do posto, comprasse todos os livros que lhe pedisse. Assim foi capaz de materializar em um enorme labirinto de livros o seu pensamento: na KBW [Kulturwissenschaftliche Bibliothek Warburg], ou Biblioteca para a Ciência da Cultura, reuniu uma coleção de mais de 60 mil livros, espalhados de forma muito peculiar no edifício de quatro andares que construiu para abrigá-la, ao lado da sua casa.
A lógica de organização dos livros seguia o princípio da “boa vizinhança”: cada livro “conversava” com seu vizinho, através de “relações íntimas e secretas”, sempre emergindo a cada deambulação pelos corredores. Cada andar do edifício correspondia a uma grande seção, criando um percurso ascendente que vai da Imagem (Bild) à Ação (Drômera), passando pela Palavra (Wort) e pela Orientação (orientierung) – ou “da magia e da cosmologia a uma compreensão racional do cosmos, do feiticeiro à ciência médica, da astrologia à astronomia, em suma, um processo de desenvolvimento em direção à ciência, cujas etapas iniciais são um pensamento mítico, ele mesmo já esclarecimento.” (WAIZBORT, 2015, p.17).
A biblioteca foi transferida para Londres em 1933, após a morte de Warburg e em função da ascenção do regime Nazista. Seu imenso labirinto é até hoje regido pelos mesmos princípios moventes criados por seu idealizador, convocando o pesquisador a se perder pelas prateleiras e corredores, com a postura do “cientista aventureiro”, como chamava. Um caminhar errante por entre o vasto conhecimento reunido, que se por um lado abria ­— e ainda abre — infinitos caminhos possíveis a percorrer, induz sutilmente o pesquisador a tecê-los na lógica warburguiana de pensamento, seus grandes temas, inquietações e percursos de pensamento. Ao transformar, assim, seu pensamento em espaço-movimento (JACQUES, 2001, p.149), transforma-se, ele mesmo, em fantasma, até hoje assombrando as prateleiras e também as fronteiras do conhecimento.

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