RESSACA TROPICAL
Jonathas de Andrade
Pernambuco, 2009-


Ressaca Tropical, de Jonathas de Andrade é um convite a percorrer a cidade do Recife pelos intervalos onde circula o inconsciente coletivo, entre memórias, desejos e sonhos frustrados, arruinados. Através do conjunto de imagens dispostas lado a lado pelo artista pernambucano, olhamos em sobrevôo suas ruas, praças e edifícios, para logo percorremos suas casas por dentro; transitamos entre os instantes cotidianos e efêmeros gravados por uma câmera doméstica e a documentação do embate entre os espaços antropizados e a natureza selvagem, que resiste a ser domada e avança contra a cidade em toda sua exuberância tropical, em ciclos de enchentes e ressacas, enlaçando suas raízes nas ruínas, como se tentasse engoli-las.

As imagens de diferentes acervos, reunidas em montagens com diferentes configurações - desde 2009 exibida como instalação em diferentes galerias, e museus e em 2016 publicada em livro pela Editora Ubu - nos apresentam uma paisagem em constante transformação, entre movimentos de construção e arruinamento, destruição e reconstrução. Não há um ordenamento cronológico, tampouco a identificação de qualquer informação sobre cada imagem em particular. As relações vão sendo tecidas de maneira anacrônica e assim atravessamos seis décadas numa espécie de suspensão do tempo, que nos permite perceber movimentos de longa duração. Mas ao invés de uma evolução, o que percebemos é um movimento cíclico, sempre fadado ao tropeço.

Entre as fotografias, um conjunto de imagens feitas pelo próprio artista retrata edificações modernistas arruinadas, abandonadas, saqueadas e invadidas pela exuberante vegetação tropical. As imagens das ruínas são confrontadas por um outro acervo de imagens amadoras, com cenas cotidianas hipersaturadas de jovens na flor da idade, provavelmente na década de 1980. Emerge um sentimento de nostalgia desse confronto entre o corpo em declínio e o corpo em expansão, puro crescimento, hormônio e desejo.

O desejo é reafirmado a cada esquina do livro ou da exposição, em cenas amadoras de casais se beijando, da mulher de peito nu deitada no capô de um carro, do casal deitado à cama, mas também pelos registros da metrópole moderna em crescimento, erguendo edifícios e rasgando ruas rumo ao futuro prometido e nunca alcançado. Nos cruzam ainda o caminho fotografias aéreas da cidade, em preto e branco, do acervo do fotógrafo Alcir Lacerda, além de imagens do arquivo da Fundação Joaquim Nabuco.

O único conteúdo textual dessa montagem são as páginas de um diário anônimo escrito entre 1973 e 1977, encontradas no lixo, transcritas e remontadas pelo artista a partir de uma outra lógica. Assim como a associação de imagens, a sucessão não cronológica dos relatos reforça a sensação de recomeço. Aproximando os muitos eventos relacionados a encontros amorosos e sexuais relatados no diário, o artista monta uma narrativa que sempre recomeça, entre novas esperanças e suas destruições. Desejo, frustração e recomeço atravessam assim a narrativa de ponta a ponta, traduzindo de maneira poética e visual o que o sentimento que o artista chama de “modernismo tropical pós-utópico” (ANDRADE et. al, 2009).

As imagens não ilustram os textos, nem estes as explicam - é do intervalo entre os tempos aproximados que emergem os sintomas, os embates, as pulsões e as polarizações. Mais do que representar ou narrar uma paisagem ou a sua evolução histórica, morfológica, Jonathas de Andrade nos faz encontrar brechas na superfície visual da cidade para entrevermos uma outra paisagem: uma cidade latina, litorânea, tropical, uma ex-colônia sempre condenada a tropeçar, entre as sucessivas investidas da cidade contra a natureza que, com a força das ondas de um mar revolto em dia de ressaca, arrebenta o concreto e dobra à força seus tirantes de aço, espiralando a linha reta do progresso e impondo sobre ele o ritmo dos seus ciclos.
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registros de montagens da instalação (2009-) e da publicação (ubu editora, 2016)
imagens: site do artista


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